Lewis Hamilton assegurou na Turquia a conquista antecipada do seu sétimo título Mundial de Fórmula 1, igualando desta forma o recorde de Michael Schumacher, isto depois de ter também já o recorde do maior número de vitórias na F1. Um enorme feito de um piloto que quase foi Campeão no seu ano de estreia na disciplina e que, passados 13 anos soube potenciar a sua bem sucedida ligação à Mercedes.

Lewis, a marca de um grande campeão desportivo é ganhar também nos dias em que talvez não seja o mais rápido, ou o mais forte, ou não tenha o melhor equipamento. Desta vez conseguiste tornar-te sete vezes campeão do mundo, depois duma exibição de um verdadeiro campeão…
“Agradeço, mas faltam-me um pouco as palavras. Naturalmente, tenho de começar por agradecer muito a todos na nossa equipa que estão aqui, a todos nas nossas fábricas, a todos os nossos parceiros por nos permitirem e nos darem esta oportunidade. Não seria capaz do fazer se não me tivesse juntado a esta equipa, e a viagem que temos feito tem sido monumental. Estou muito orgulhoso de todos eles.
Quero também dar um grande obrigado à equipa ‘LH’ por se ter mantido comigo todos estes anos e depois à minha família. Sonhámos com isto quando éramos jovens, quando eu era jovem, quando estávamos a assistir aos Grandes Prémios e isto estava muito, muito para além dos nossos sonhos. É tão importante que as crianças possam ver isto e saibam que… não devem dar ouvidos a ninguém que vos diga que não podem alcançar algo. Sonhem o impossível, e mostrem exemplos. Mas têm de trabalhar para isso. Têm do perseguir e nunca desistir, nunca duvidar de si próprio”.

Como resumes tudo isto?
“Honestamente, penso… O meu pai costumava sempre dizer-me para falar na pista, por isso não tenho realmente muito a dizer. Isto mostra o que podemos fazer todos juntos. É importante que as crianças vejam isto. Sonhei com isto quando tinha cinco anos de idade, estar aqui na Fórmula 1. E é tão importante agarrarmos-nos aos nossos sonhos, sonhar em grande, para todos nós, não importa a nossa idade. Demorou muito tempo a chegar aqui, mas estou eternamente grato a quem me ajudou. À minha equipa, por acreditar em mim, ao Ron (Dennis), por me aceitar quando eu era criança, à Mercedes, que continua a apoiar-me, desde os 13 anos de idade, até hoje. E particularmente à minha família. Muito grato a eles. Espero que eles estejam a celebrar.”

Estás orgulhoso da tua pilotagem nesta corrida?
“Sabíamos que vir à Turquia seria um fim-de-semana difícil. Não ficámos muito desiludidos com a nossa posição na qualificação. Sabíamos que começámos com o pé esquerdo, mas estávamos a fazer o melhor que podíamos. Mas depois aprendemos muito. Isto é o que fazemos como equipa. Não há jogo de culpas. Simplesmente continuamos a tentar melhorar a nossa comunicação para que possamos avançar. Nem sempre conseguimos que tudo seja perfeito. Tivemos aquele pequeno ‘momento’ no início da corrida com os pneus novos, e depois não consegui passar pelo Seb (Vettel) durante algum tempo. Nessa altura, pude ver Albon a afastar-se e pensei: “Jesus, esta corrida está a cair-me por entre os meus dedos”. Mas mantive o foco e continuei a acreditar que acabaria por chegar ao ritmo, em algum momento. E foi isso que eu fiz”.

Em que momento pensaste que podias ganhar esta corrida?
“Houve um momento em que o Seb (Vettel) se estava a afastar de mim e eu não conseguia perceber na altura o que era. Eu verificava as temperaturas. Não sabia se era porque os pneus estavam a sobreaquecer, ou se estavam demasiado frios. Passei pela fase realmente dura do granulado nos pneus, mas depois disso a aderência começou a voltar. A pista estava a secar em algumas zonas e eu estava a melhorar as minhas trajetórias durante toda a corrida e comecei a acelerar o ritmo. E então o Seb (Vettel) foi às boxes e eu sabia que não era a escolha certa, e pessoalmente decidi ficar em pista e à medida que os pneus ficavam cada vez mais lisos, era exatamente isso que precisava. Felizmente, estes pneus intermédios mantêm a temperatura. Se eu tivesse ido às boxes e saído com slicks não teria conseguido vencer.”

Os teus pneus estavam completamente lisos, nus, carecas. Tu anulaste a indicação da equipa, não quiseste uma paragem rápida nas boxes, pensaste que conseguirias levar o carro até ao fim…
“Lembram-se que eu perdi um mundial no pitlane, aprendi a minha lição de 2007. Senti que estava tudo sob controlo, a aderência era boa e pensava que iria lidar bem com a chuva se caísse…”

Achas que é das tuas melhores vitórias?
“Já corro há muito tempo, por isso é difícil de comparar! Eu diria que geralmente todas as corridas se sentem como se fossem a primeira.
É única. Não comparo nenhuma corrida, a qualquer outra. Estou sempre num lugar diferente na vida, por isso gosto de dizer que todas elas são únicas à sua maneira. Diria que esta pareceu-me um dia muito completo em pista, devido às circunstâncias difíceis. Com esta pista e o novo asfalto, viram-se pilotos profissionais, condutores incríveis, que perderam o controlo, e isso mostra que as condições eram muito difíceis.
Este foi um grande teste para mim, porque na chuva sabemos o que normalmente fazemos, mas isto foi algo diferente, no sentido de que era como guiar no gelo! Não me lembro de ter feito uma corrida no gelo antes. Hoje sinto-me como se tivesse conseguido algo diferente.
Com certeza que sei que nem todos esperavam isso. Definitivamente eu não esperava isso, mas estava esperançado de que iria seguir em frente. Fiz uma boa partida, perdi uma posição na primeira volta com aqueles pneus novos, mas quanto mais rodava, mais sentia que estava a melhorar. Acho que me estou a compreender melhor. Eu sei o que quero do carro. Sei quais os botões a carregar. Durante uma corrida, estou constantemente a afinar o meu estilo de condução. É como tentar encontrar os números certos a juntar para poder percorrer as curvas duma forma que seja mais rápida do que todos os outros. Essa matemática, esse algoritmo parece nunca parar. É sempre um desafio volta a volta e penso que nesta corrida estava realmente a dominar todas as incógnitas, pelo menos a partir do meio da corrida.

Lewis, falaste da tua família, sabemos que és muito próximo do teu pai e da tua família. Tiveste oportunidade de falar com eles. O que lhes disseste e o que é que eles te disseram?
“Não tive oportunidade de falar com ninguém, infelizmente. Espero que se sintam realizados. Os meus pais sacrificaram tanto por mim para estar aqui e nunca tomo isso como garantido. As coisas que enfrentámos, os desafios que enfrentámos e o sonho que tivemos, e todas as escolas e pessoas a dizer que não estaríamos onde estamos hoje, espero que tenhamos ganho o respeito, espero que eu tenha ganho o respeito. Mas há mais a fazer. Este é o auge da minha vida até agora, mas há uma vitória muito maior para a qual todos nós precisamos de trabalhar em conjunto, que é caminhar para a igualdade de oportunidades para todas estas crianças que andam por aí para que possamos criar um futuro melhor, mas isso vai levar-nos a todos a fazê-lo juntos”.

A forma como selaste este título foi impressionante, é certamente uma das tuas melhores vitórias com a Mercedes. Em que momento sentiste que a corrida estava a cair para o teu lado e quão gratificante é ter ganho o título com este tipo de desempenho, digamos, ‘esmagador’?
“Obviamente, comecei muito bem e depois perdi a posição. Evitei uma penalização se passasse do outro lado do pino. Estava com dificuldades. Sei que, mais ou menos, todos as tinham. Depois, vimos pilotos como o Max, que é ótimo no molhado, fazer um pião, perder o controlo e ter de fazer paragens extra. Eu estava atrás do Seb (Vettel) e por momentos pensei que poderia passá-lo, mas a batalha foi boa, mas frustrante não conseguir passar. Mas também estava a pensar, “sabes que mais, o Seb teve o ano mais difícil, diria que talvez em toda a sua carreira” e pensei para mim, que ele estava a guiar tão bem. Mas ao mesmo tempo estava tipo, “ele está a andar bem, mas caramba, ele está no meu caminho, os tipos da frente estão a fugir!” E então ele começou a afastar-se de mim e penso que nessa altura eu pude ver a vitória a ficar mais longe. Estava na volta 30 e pensei, “não, há um longo, longo caminho a percorrer e tudo pode acontecer, por isso basta manter o foco, e continuar a forçar. De repente, encontrei algumas coisas que melhoraram a maneabilidade do carro e comecei a fazer voltas muito mais rápidas, e a diminuir a margem para o Seb, e depois ele foi às boxes. E pensei, não há maneira de me levaram às boxes. Estes pneus estão bons e a pista está num estado progressivo e não vai secar totalmente até ao final da corrida”. Isto soube através de todas as experiências que já tive, por isso pude usar a história, a experiência passada. Assim que pude ver os Force India (ndr, agora são Racing Point, Lewis…) soube que era a ‘hora do jogo’. Só tens de manter a cabeça fria, manter a calma e não cometer erros”.

Lewis, és o piloto mais bem sucedido na história da Fórmula 1, mas ainda há muitos críticos por aí, que dizem que estás apenas a ganhar porque tens o melhor carro. Hoje mostraste que não é esse o caso. Quão importante é isso para ti?
“Sim. Quero mais destes fins-de-semana. Condições mais complicadas como esta. Quanto mais oportunidades como esta, mais eu sou capaz de mostrar o que sou capaz de fazer. E penso que hoje, espero que possam ver… penso que mereço o meu respeito. Penso que o tenho junto dos meus pares. Penso que eles podem ver como é difícil… sabem como foi difícil nesta corrida. No entanto, não poderia ter feito isto sem aquele incrível grupo de pessoas atrás de mim. Mas há outro grande piloto que está ao meu lado, que tem o mesmo carro, e que obviamente não terminou onde eu terminei. Noto que existem estes comentários interessantes de pilotos anteriores, particularmente. Prometo-vos, realmente, e espero manter a minha palavra, quando parar daqui a 10, 20 anos e olhar para trás, quero abraçar e encorajar os próximos jovens que estejam aqui, quer seja o Lando (Norris), quer seja o George (Russel), quem quer que seja, quer seja o Max (Verstappen).
Eu sei como é difícil fazer o trabalho, e sei como este mundo funciona. É claro que é preciso ter uma boa equipa, e é claro que é preciso ter um grande carro. Não há nenhum piloto que alguma vez tenha ganho o Campeonato, no passado, sem um grande carro.
O mesmo se passa com o karting. Tem de se ter o equipamento certo. Lembro-me do meu primeiro campeonato. Eu corri e o miúdo que ganhou tinha um motor de foguetão, que o pai do Jenson Button tinha afinado. Aqueles motores eram verdadeiros foguetes. Comparado com o motor barato e de merda que eu tinha, e que era, de quinta mão, não havia maneira de eu conseguir acompanhar aqueles miúdos, e lembro-me que num fim-de-semana ele estava a passar para… Kimbolton, em 1992, 1993, estava a passar para a categoria seguinte, e a vender esses motores. Lembro-me que o meu pai teve de fazer uma segunda hipoteca da casa para conseguir esse motor de £2000. Nesse dia, eu e este miúdo, que tinha ganho tudo, estive sempre à frente dele em pista. Portanto, claro, é preciso ter o equipamento, é claro que é preciso tê-lo e isso é algo que será sempre assim neste desporto. Mas também é o que se faz com ele que realmente conta, e esta corrida é um bom momento para se ver isso”.

Lewis, para terminar, fizeste muitas declarações poderosas contra o racismo este ano. Tornaste-te o piloto de corridas mais bem sucedido de sempre e possivelmente o mais poderoso de todos. O que é que isso significa para ti e que mensagem isso envia ao mundo?
“Não é obviamente segredo que eu realmente andei neste desporto sozinho: era a única pessoa negra aqui, ou a única pessoa de cor aqui, e é um ponto realmente interessante. O facto é que como sou bi-racial (ndr, filho de pai negro e mãe branca), enquanto aqui é o termo do piloto negro. Sou bi-racial e penso que talvez as pessoas devam ler sobre isso. Penso que, espero, mostre que, quando era mais novo, não tinha ninguém no desporto que se parecesse comigo e, por isso, foi fácil pensar que não é possível lá chegar, porque nunca ninguém desta cor esteve lá, não se vê ninguém na televisão, nenhum negro na televisão que estivesse na Fórmula 1, por isso… mas penso que, espero, isto envie uma mensagem às crianças que estão a ver. Espero que tenham visto que não importa de onde vens, que qualquer que seja o teu passado, que é importante para ti sonhar em grande. E se estiveres a olhar para lugares, indústrias que não vês alguém com a mesma origem que tu, ou a mesma etnia que tu, ou com a mesma religião, cria o teu próprio caminho. Porque foi o que nós fizemos. Foi isso que consegui fazer. E tem sido muito difícil. Duro nem sequer descreve como tem sido difícil. Espero que isso envie essa mensagem. Essa é a mensagem mais importante para as crianças: sonhar o mais possível e não desistir…”