No âmbito duma nova parceria feita por Max Verstappen com a Carnext.com, fomos a Milton Keynes, onde tivemos uma interessante conversa com o jovem holandês. Já lá vão cinco anos de F1, mas a ‘pinta’ de ‘puto’ irreverente está lá toda. Uma simpatia jovial para os jornalistas, um ‘terror’ para os adversários.

O dia nasceu frio, mas não demorou muito a aquecer. O desafio passava por ir a Milton Keynes, fazer uma visita rápida à fábrica da Red Bull Racing, e conversar um pouco com Max Verstappen. A poucos dias de rumar ao Brasil, o jovem holandês não se furtou a qualquer questão, mas abespinhou-se quando lhe atiraram com “disseste que o Lewis não era grande coisa”. Só ‘travou mais tarde e mudou de trajetória’ quando lhe falaram da alegada batota da Ferrari.
De resto, fique a saber que gosta de futebol, MotoGP, e já se cansou de ler o que sobre ele escrevem nas redes sociais. Aí, descansa, Max, que não estás sozinho…

Qual foi o teu momento mais excitante na Fórmula 1?
“Ui, isso é difícil, há muitas coisas excitantes na F1, até mesmo guiar o carro é excitante, mas para dar só um exemplo, a corrida deste ano na Áustria, todo o trabalho que tive para chegar lá à frente, para mim foi dos momentos mais excitantes da minha carreira…”

Como te divertes nos tempos livres?
“Gosto muito de simuladores (muitos risos)! É claro que de vez em quando temos que desligar e fazer outras coisas…“

Gostas mais de circuitos citadinos ou pistas ‘normais’?
“Prefiro pistas. Claro que o Mónaco é especial, Singapura é especial, mas sempre tive a sensação que não se pode ir absolutamente a fundo nos circuitos citadinos. Num circuito ‘normal’, numa qualificação, tu sentes que podes dar 100%, mas num circuito citadino tens sempre outros limites…”

Queres contar-nos algum detalhe da tua vida na F1, que as pessoas possam achar curioso?
“Sim, tenho um exemplo engraçado. Quando vamos de férias, depois duma temporada de F1, as mãos tendem a ficar mais macias e quando regressamos ao carro para os testes de pré-temporada, nada magoa, mas com o passar do tempo voltam a ficar mais rijas…”

Max, em Portugal temos um rapaz chamado Cristiano Ronaldo…
Nunca ouvi falar dele…(muitos risos).

…Como te sentes sendo o herói dos holandeses?
Na verdade nunca tinha pensado nisso dessa forma. Basicamente, tento fazer o melhor que posso em pista. Claro que espero motivar e tento estimular a nova geração. Vê-se que o karting se tornou mais popular na Holanda, os mais jovens querem ser o próximo Verstappen, querem estar na F1, é giro ver essa tendência crescer, mas o que posso fazer é fazer o que tenho feito e ajudar nisso, o que é bom…”

Até onde queres chegar? Já anseias por vencer campeonatos?
“É claro que quero ganhar campeonatos, mas há sempre que olhar para as circunstâncias. Olhando para trás, esta época tem sido boa, consistente, especialmente na fase inicial, boas vitórias, pódios. Duma forma geral estou contente, todos os anos posso dizer a mim próprio que melhorei, o que é sempre bom, ganhei mais experiência e com isso fui-me tornando um melhor piloto, mas eu sempre me coloquei a fasquia muito alta, quero sempre melhorar, e por vezes mesmo uma vitória pode ser conseguida duma melhor forma. Claro que quando as vitórias surgem, festejo-as como todos os outros, mas depois olho para o que fizemos e tento perceber o que poderia ter sido feito para ser ainda melhor. Desde que comecei a correr, sempre foi assim, o meu pai, que tem sido uma grande parte disto tudo, sempre me dizia, mesmo quando ganhávamos, que poderia ter sido feito duma forma melhor. Alertava-me sempre para os erros. Sempre foi duro para mim, mas agora, por causa disso, eu faço o mesmo a mim próprio. Na altura discordava dele, mas agora percebo que isso foi uma grande ajuda”.

Achas que estás a perder alguma coisa na tua vida, coisas típicas da juventude?
Nada! Adoro as corridas e como devem calcular ser este o meu trabalho não é uma coisa horrível de se fazer. Cresci nas pistas de Karting, o meu pai corria a minha mãe também. Claro que tenho amigos de diversas proveniências, mas sempre estive longe de ansiar outra coisa. Sou apaixonado pelas corridas, boa parte da minha vida em criança foi passada nas pistas de karting e agora adoro na mesma medida guiar carros de F1”.

Tens alguém que de vez em quando te diz para pensares duas vezes no que fazes?
“Sim, claro, a família em geral, na equipa, claro, falo muito com o Christian (Horner) e o Helmut (Marko). Dantes, era mais o meu pai, pois passava muito mais tempo comigo, mas agora que tenho de fazer as coisas sozinho, já não falamos tanto. No seio da equipa, claro que o Helmut (Marko) está muito envolvido…”

Quais são os teus interesses, outros desportos, redes sociais?
“Para ser honesto, as redes sociais são boas, mas não de todos os pontos de vista. Todos escrevem o que pensam, e as coisas por vezes podem ser brutais, mas claro, é sempre muito mais difícil isso acontecer quando se tem a pessoa à frente. As coisas são muito diferentes nas redes sociais, mas é como tudo se passa hoje em dia, e eu não presto muita atenção a isso. Claro que continuo a postar coisas, as pessoas gostam, mas de resto não me preocupo muito. Uso a internet essencialmente para saber novidades doutros desportos, não particularmente da F1. Aliás, passo muito tempo sem ler nada de F1. Gosto de futebol, MotoGP, é interessante ler outras coisas para lá de F1”.

O Vettel foi campeão com 23 anos e 4 meses, falta apenas mais um ano para poderes ser o mais jovem campeão de sempre da história da F1. Quão importante isso é para ti?
“Seria giro, espero que o próximo ano seja muito bom para nós na Red Bull, mas temos que esperar para ver…”

Tenho a sensação que estás um pouco mais calmo, menos agressivo, cometes menos erros, é assim?
“Por vezes há que ser agressivos, noutras alturas temos que nos adaptar às situações. Cometi erros, todos cometemos erros, a parte boa de cometer erros, é aprender com eles, mas depois dizes a ti próprio não faças isto, tenta não cometer este erro. Claro que quando se é jovem e se vive nos limites como acontece na F1 é fácil cometer erros. O mais importante é que aprendas com eles e tentes fazer melhor a partir daí…”

Recentemente, tiveste uma grande polémica com a Ferrari…
“É um assunto muito sensível, mas não quero voltar ao assunto, as coisas estão como estão, agora, prefiro seguir em frente, e focar-me no que tenho pela frente…”

Dizes sempre o que pensas nas conferências de imprensa…
“Sim, provavelmente sou demasiado honesto! Sempre fui muito honesto e muito direto. Mas estou contente por ser assim, foi assim que cresci é assim que sou. É claro que com o tempo ganhamos ‘calo’, o tempo é bom para a maior parte das situações, mas por vezes as coisas podem funcionar contra ti. Mas vejo os aspetos positivos de ser assim.”

Como é a tua rivalidade com o Charles Leclerc?
“Não é diferente dos outros. É claro que o conheço há mais tempo, já corremos um contra o outro há mais tempo. É um grande piloto, tem um talento enorme, e tem agora uma grande oportunidade na Ferrari. Espero lutar com ele durante muito tempo, somos ainda ambos muito jovens. Penso que é muito bom para a F1 ter tantos jovens a chegar e, espero, a chegar ao topo muito depressa, já começa a ser um bocado chato ver o Lewis (Hamilton) ganhar tantas vezes (risos), nós jovens vamos tentar mudar isso depressa.”

O Lewis (Hamilton) posicionou-se bem no fim da era Schumacher, achas que tu e o Charles (Leclerc) podem ser os próximos da linhagem?
“O Lewis (Hamilton) está a ficar velho (risos), tem 34 anos, penso, e vai parar um dia. Quanto à transição seguinte, vai depender da equipa. Quanto a ele, enquanto a equipa lhe der carros ganhadores, vai continuar a vencer. Quanto a nós temos que assegurar como equipa que atingimos esse nível, pois na F1 tudo está muito dependente do carro que guias. Até aqui, a Mercedes tem estado milhas à nossa frente, mas vamos tentar novamente em 2020.”

Vês-te fora da Red Bull?
“Estou muito feliz onde estou, e quero mesmo ganhar com a Red Bull. Em primeiro lugar, trouxeram-me para a F1, portanto, tenho para com eles um sentimento de lealdade. Claro que já ultrapassámos essa fase, neste momento, mas reforço que sou muito feliz onde estou. Gosto realmente de trabalhar neste grupo de pessoas. Aqui, sinto-me em casa e é muito bom para um piloto que se sinta apreciado. Este é um grupo de pessoas muito motivado, e por tudo isto não quero mudar. Como já disse, quero ganhar com a Red Bull. Obviamente, o tempo o dirá, mas de momento é o que penso. Vamos ver o que acontece.

E quanto às regras de 2021, os carros vão ser mais lentos…
“Sim, ao que parece vão ser mais lentos quatro ou cinco segundos, mas para mim, desde que não seja demasiado, não há problema. Os carros atuais são fantásticos de pilotar mas se quisermos mais ultrapassagens e mais entusiasmo nas corridas de F1, tem que ser assim. Vamos ver como os carros ficam, não me importo que os carros não sejam tão bonitos, embora isso seja discutível, o que me interessa é haver boas corridas”.

Achas que é uma boa oportunidade para a Red Bull se aproximar ou eventualmente passar a Mercedes e a Ferrari?
“Sim, mas em primeiro lugar vamos tentar no próximo ano, ainda com estes regulamentos. Fazer isso, e depois em 2021 esperar que as coisas mudem a esse nível.”

Disseste que o Lewis não era especial…
“Não é verdade, não disse dessa forma, isso é mentira…”

Então esclarece o que disseste, e já agora fala também do (Charles) Leclerc e do (Sébastian) Vettel…
“São os três grandes pilotos, mas de forma diferente. Cada um tem o seu estilo e eu nunca disse que o Lewis não era especial, isso não é verdade. Ele é especial! É muito bom, é definitivamente dos melhores pilotos de sempre na F1, mas como também já disse, muito depende do carro que se guia, e por exemplo se o Fernando (Alonso) tivesse estado na Mercedes, também teria ganho campeonatos.
Ele (Hamilton) teve sorte, juntou-se à equipa (Mercedes) e uns tempos depois começaram a ganhar campeonatos. O Fernando (Alonso) esteve em várias equipas na altura errada, e deixou de ganhar campeonatos, mas isso não significa que não seja um bom piloto, está também entre os melhores. Quanto ao Lewis, nunca tive problemas com ele. Eu respeito o Lewis, mas somos pilotos de corridas e as coisas por vezes podem ficar mais duras. Falámos e está tudo bem…”

Gostavas de ter lutado com o Fernando Alonso?
“O Fernando é um grande piloto, e para mim é uma pena que ele tenha passado estes últimos anos num carro que não era fantástico, e que não tenha tido hipóteses de lutar na parte da grelha que merecia. Ele é um piloto que um dia eventualmente lamentarei não ter disputado corridas ou campeonatos com ele, tenho pena”.

Achas mais fácil correr com piloto da geração do Kimi (Raikkonen), do Lewis (Hamilton) ou os mais novos?
“Não é uma questão de ser mais difícil, mas os mais experientes são pilotos menos previsíveis, porque os pilotos que corri desde os tempos do karting, já os conheço, ainda que toda a gente mude. Não direi que uns são mais fortes ou fáceis, todos são complicados à sua maneira, mas a verdade é que esta é a minha quinta época na F1 e posso dizer que já ‘topei’ a malta toda”.

Tu e a tua equipa têm andado com alguns altos e baixos nos resultados, queres explicar um pouco?
“Curiosamente ainda ontem estive a falar com os meus engenheiros. Spa não foi mau mas não é uma pista que seja muito boa para o nosso carro, depois tivemos Monza, e com uma penalização de motor não havia muito que pudéssemos fazer, mas a verdade é que se virmos bem, fomos competitivos. Depois de Monza veio Singapura, onde cometemos um erro com a afinação do carro, basicamente destruímos o fim de semana por causa disso. Fomos ao pódio, mas se acertássemos, teríamos lutado pela vitória. Depois veio a Rússia, que nunca foi boa para nós, há demasiadas longas retas, portanto não havia muito que pudéssemos fazer, e por isso o resultado não foi bom. Depois da Rússia, o Japão foi um fim-de-semana muito confuso por causa do tufão, mas errámos na afinação e o nosso primeiro setor era mau. Em termos gerais, não foi mau, mas houve demasiados pequenos infortúnios. Para além disso a Ferrari esteve muito competitiva e colocou uma sombra nas prestações das outras equipas”.

Estás confiante para 2020?
“Estamos muito confiantes para 2020, mas como é lógico temos que trabalhar forte, melhorar. Temos vindo a testar coisas novas no carro, novas ideias para 2020. Não estamos a falar de peças para 2020, mas sim de direções, testar e perceber como funcionam fazendo comparações”.

O que esperas da Honda para 2020?
Mais potência! A fiabilidade tem sido boa, nunca desistimos devido a um problema do lado da Honda, para eles esta temporada tem sido diferente das anteriores, já tivemos vitórias e pódios, penso que foi um grande ‘boost’ para a Honda e por isso estão muito motivados. Penso que estamos no bom caminho, e quando se olha para os motores da Mercedes e da Renault, tudo parece promissor.

O que achas de um calendário de 25 corridas?
“São demasiadas! Eu adoro corridas, mas é demais. Penso que seria melhor ter 20 boas corridas. 25 acho que vai ser um problema”.

O que achas do GP em Zandvoort, não achas que será muito lotado, muito ocupado, demasiado para a pequena vila?
“Penso que haverá muita gente vestida de laranja! (risos) Será com certeza um fim de semana muito ocupado, mas a verdade é que há muita gente que nunca teve a oportunidade de ir ver uma corrida de F1. Será uma grande oportunidade para muita gente poder ir ver.
A F1 tem estado longe da Holanda e pode ser que atraia mais jovens para o Karting e em 10 ou 15 anos possa haver outro piloto holandês, quando eu estiver a ficar velho, e assim já me posso retirar…”

Já lá vão cinco épocas na F1…
“Passou tão depressa que eu já nem me lembro dos meus primeiros testes. Tudo tem acontecido de forma muito rápida, mas felizmente de um modo positivo. Ainda tenho 22 anos, quinto ano na F1, mais de 100 corridas, não me posso queixar. Habituamos-nos à situação e agora só quero mais. Quero vencer corridas, campeonatos. Mas já não olho para trás”.

Qual foi o melhor conselho do teu pai?
Dá-me muitos. Bons e maus (risos). Mantém os pés bem assentes no chão, sê tu próprio, nunca te esqueças de quem são os teus verdadeiros amigos, penso que são os mais importantes. Sê tu, não mudes com o tempo. Claro que ficamos mais velhos e naturalmente mudamos um bocadinho. Também me diz para ter cuidado, mas também gostamos de corridas. Correr na F1 continua a ser muito mais seguro que andar na estrada”.