O modelo de simulação conclui a “redução considerável da largura de algumas praias entre Cortegaça e Mira e o aparecimento de novas aberturas entre o mar e a ria de Aveiro”, lê-se num comunicado da Universidade de Aveiro (UA).

O algoritmo desenvolvido por uma equipa liderada por Carlos Coelho, investigador do Departamento de Engenharia Civil da referida instituição de ensino, conclui que o areal das frentes urbanas protegidas tenderá a desaparecer, acompanhando o recuo da linha de costa face ao avanço do mar, com a exceção do troço entre as praias de São Jacinto e Torreira, onde o molhe do Porto Comercial de Aveiro segura uma grande quantidade de sedimentos. 

Carlos Coelho, investigador da Universidade de Aveiro responsável pelo estudoCarlos Coelho, investigador da Universidade de Aveiro responsável pelo estudo

A análise das linhas de costa entre Cortegaça-Furadouro e Vagueira-Praia de Mira – as duas mais afetadas pela erosão costeira no país – dá conta de que “daqui a 30 anos poderá haver a sul da Vagueira a ligação entre a laguna de Aveiro e o mar”, adverte o investigador.

As simulações obtidas através do algoritmo têm por base dados sobre a evolução da linha de costa nas últimas décadas e partem do princípio que as condições atuais se mantêm, lê-se na nota de imprensa.

Modelo numérico

O algoritmo desenvolvido por Carlos Coelho está em “adaptação constante”. O investigador reconhece a existência de limitações no conhecimento e na tradução numérica de todos os processos envolvidos na erosão costeira, mas explica que apesar da escassez de dados é importante dar seguimento à monitorização, já que “quanto mais dados tivermos, e mais minuciosos forem, melhor poderemos calibrar o modelo de forma a obtermos melhores projeções”.

Este cenário desolador para a região já tinha sido avançado num estudo de 2005 da mesma universidade. Cristina Bernades concluiu que “cada vez há menos sedimento disponível para ser transportado pelas correntes da deriva litoral, fator decisivo para o aumento da erosão na costa de Aveiro".

Na altura, a investigadora garantiu que a costa aveirense recuou significativamente desde 1958 e frisou que a tendência era para continuar. "A tendência na zona de Aveiro é para uma erosão muito séria e continuação do recuo da linha da costa. Os rios trazem cada vez menos sedimentos até à foz", advertiu.

Mar vai ligar-se à laguna de Aveiro a sul da Vagueira se nada for feito, alerta estudo da UAMar vai ligar-se à laguna de Aveiro a sul da Vagueira se nada for feito, alerta estudo da UAFotografia: UA

O rio Douro é um dos principais contribuintes em sedimentos para a zona, mas uma grande quantidade fica retida nas barragens ao que ainda se acrescem as extrações de areias feitas nos rios. O estudo de 2005 concluiu ainda que "as correntes estão artificialmente desnutridas de sedimento e (…) dissipam a sua energia na erosão das praias e das dunas", defendendo a destruição dos esporões ou a recarga artificial das praias para contrariar a erosão, já que "os molhes do Porto de Aveiro, os esporões e enrocamentos acabam por ser armadilhas para o pouco sedimento disponível".

"Há praias que pura e simplesmente desapareceram nos últimos tempos", lembra a investigadora.

Nos últimos 52 anos, entre a Costa Nova e a Vagueira, a linha de costa recuou 73 metros. Entre  Maceda e o Furadouro, no mesmo período de tempo, houve um recuo de 120 metros. Mas entre alguns pontos desta faixa costeira, registaram-se recuos de 230 metros, o que correspondente a uma perda efetiva do sistema praia-duna, sublinha a investigadora, e um recuo médio da linha de costa de seis metros por ano.