"Mo Yan demonstra tanto prazer em descrever em detalhes um grande banquete, quanto um grande massacre", relata Sylvie Gentile, uma das primeiras tradutoras do escritor.

Mo Yan é hoje um dos mais famosos escritores chineses, tanto no seu país como no exterior. Alcançou notoriedade com o livro "Sorgo Vermelho", que ganhou uma adaptação para o cinema do diretor Ahang Ymou, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim em 1988.

As suas obras extensas, que geralmente ultrapassam 500 páginas após a tradução, regularmente figuram nas listas de best-sellers na China, ao lado dos romances de Yu Hua, autor de "Brothers".

Mo Yan, que na verdade se chama Guan Moye, nasceu em 1955, no seio de uma família de agricultores que passou fome durante o período de 1958-1961, quando a campanha de coletivização excessiva, iniciada pelo líder comunista Mao Tse-Tung provocou a morte de 20 a 50 milhões de pessoas.

Na sua cidade natal, na província de Shandong, viveu uma juventude marcada pela privação, uma escolaridade complicada e rapidamente interrompida, devido à Revolução Cultural.

"Em criança era muito taciturno, falava pouco, estava sempre muito fechado em si mesmo", relata Gentile. Mais velho, escolheu como pseudónimo "Mo Yan", que significa "não fale". E, paradoxalmente, foi esta a doutrinação que permitiu que prosperasse.

"Um escritor deve expressar críticas e a sua indignação com o lado obscuro da sociedade e da fealdade da natureza humana", afirmou Mo Yan.

"Mo Yan faz parte desses camponeses de famílias analfabetas que foram mais ou menos salvas pelo exército, que conseguiu estudar e ter sucesso na carreira, tornando-se um escritor", prosseguiu a tradutora.

O camponês-soldado-escritor guardou por muito tempo a sua farda, o que não o impediu de publicar livros, mesmo que, por vezes, a censura tenha prevalecido. Como foi o caso de "Big Breasts and Wide Hips" (Peito grande, ancas largas), o seu romance mais popular, editado em português em 2007.

Ávido leitor, aprecia os autores ocidentais, as literaturas russa, japonesa, sul-americana, explica à AFP Noel Dutrait, que traduziu para francês o livro "The Republic of Wine" (A República do vinho, em tradução livre), outra sátira do autor.

"Mo Yan tem uma peculiaridade: ele esforça-se sempre para mudar de estilo em cada novo romance", ressalta Dutrait. Uma riqueza encontrada na variedade de temas escolhidos, desde o conflito sino-japonês até as torturas chinesas, passando pelo abate de porcos ou a corrupção dos políticos comunistas.

"Um escritor deve expressar críticas e a sua indignação com o lado obscuro da sociedade e da feiúra da natureza humana", afirmou Mo Yan.

Num livro mais recente, intitulado "Sapos", Mo Yan evoca a acirrada política de controlo de natalidade na China, uma questão sensível que, no entanto, deixou de ser tabu há alguns anos.

De acordo com Eric Abrahamsen, um especialista americano em literatura chinesa, Mo Yan é um "grande escritor (...), que escreve o Grande Romance da China", enquanto é "muito inteligente sobre o que pode ou não ser escrito".

Mo Yan é convidado regularmente a ir ao estrangeiro mas não gosta muito de dar entrevistas. Continua muito apegado à sua terra natal de Gaomi, em Shandong. Foi lá que um dia recebeu um dos seus admiradores mais fiéis, o escritor japonês Kenzaburo Oe, prémio Nobel de Literatura em 1994.

Mo Yan, feliz pelo prémio, prometeu investir mais na escrita
O escritor chinês mostrou-se "feliz" pela atribuição do Prémio Nobel da Literatura 2012 pela Academia Sueca, e prometeu, em declarações na China, investir mais na escrita. No entanto, Mo Yan disse que ganhar o Nobel da Literatura "não significa tudo".

"Penso que a China tem numerosos autores muito dotados. A sua produção brilhante merece igualmente ser reconhecida pelo mundo", apelou, falando a partir da localidade de Gaomi, na província de Shandong.