Hindu eu a caminho de Hampi

Considerada uma das religiões mais antigas do mundo, o hinduísmo é uma tapeçaria para lá de complexa mas para fins introdutórios, vamos ao best of e ao worst of.

Considerada uma das religiões mais antigas do mundo, o hinduísmo é uma tapeçaria para lá de complexa mas para fins introdutórios, vamos ao best of e ao worst of.

Acabou-se a cristandade, os bifes de vaca e as bebedeiras baratas. Cheguei à Índia hindu. Baratas ainda há e, quanto ao álcool, é mais difícil de encontrar e, quando existe, vem em canecas da Disney para fingir que é café. Os menus são vegetarianos e o frango é a exceção carnívora, se partirmos do princípio de que é frango. Carne não é coisa que abunde em Karnataka e quanto mais autocarros apanho para chegar a Hampi, mais “hinduzida” fico. Considerada uma das religiões mais antigas do mundo, o hinduísmo é uma tapeçaria para lá de complexa mas para fins introdutórios, vamos ao best of e ao worst of.

O melhor do hinduísmo é o extraordinário Panteão! Nunca vi religião que se prestasse tanto ao super-heroísmo em versão plástico e autocolante, em mil e uma cores. Nunca mais me esqueço daquele macacão de 32 metros de altura que vi, entre viadutos, quando cheguei a Nova Deli. Não há nada mais estranho para o europeu habituado a adorar reis, poetas e virgens em sóbrias estátuas de mármore que ver estas personagens cheias de cor e muitos braços, em tamanho-prédio.

Simplifiquemos a coisa, sigam-me devagar para não tropeçar. O Ser Supremo é Brahman, O Deus que, por sua vez, é a primeira entidade do Trimurti (tipo Pai, Filho, Espírito Santo), neste caso Brahma, Vishnu e Shiva. O primeiro é o Gerador de tudo, o segundo é o Organizador e o terceiro o Destruidor. Juntos são G.O.D.!

Quando as coisas estão a dar para o torto, Vishnu vem à Terra, para restaurar a paz e a ordem (dharma) na forma de um dos seus muitos avatares, o amado Krishna é um deles, mestre no texto sagrado (Bhagavad Gita), Rama, o herói do épico Ramayana, é outro. Há centenas de histórias e episódios, batalhas e romances para explorar.

E depois é conforme a necessidade (tipo santos católicos). Se falta dinheiro, reza-se a Lakshmi. Se queremos remover obstáculos, chamamos por Ganesh. Se precisamos de força e coragem, evocamos Hanuman, e por aí fora. Há deuses para todas as dificuldades. E 330 mil deuses mostram o difícil que pode ser a vida por aqui.

E chegamos ao pior do hinduísmo: o sistema de castas. Bater na avó não consegue ser tão mau! É um boicote evolutivo tão grande que é difícil de acreditar que tenha pegado num subcontinente de milhões de pessoas. E, apesar de hoje ser proibido pela Constituição, está tão enraizado nas mentalidades que mais depressa o Gandhi ficava obeso do que via este cenário mudar. No ocidente há o self made man, aqui há o you’re done man.

Ora, este sistema parte do princípio de que cada ser humano nasce dentro da classe social que merece, conforme o Karma da sua reencarnação passada. Mobilidade social e casamentos entre classes são mais proibidos que entre espécies, não há cá atalhos para o sucesso.

Há quatro castas para colecionar, correspondentes a quatro partes do corpo do Deus Brahma, da cabeça nasceram os Brâmanes, a classe mais elevada de sacerdotes e letrados que obviamente magicaram esta teoria para seu bel prazer e segurança, dos braços nasceram os Xátrias, os guerreiros que ajudaram a manter a coisa, das pernas nasceram os Vaixás, os comerciantes que lucraram com a coisa e finalmente dos pés, nasceram os Sudras, os servos, camponeses, operários e artesãos sem os quais não havia brincadeira para ninguém.

Mas como é que se motiva o pobre a trabalhar sem a doce ilusão de subir de casta e ter uma vida melhor (coisa impossível neste sistema)? Inventa-se um grupo (que, neste caso, nem casta é) ainda mais desgraçado que o pobre. É o pó que o Deus pisa, aliás é o pó em que nem Deus toca, os párias, os Dalit, os intocáveis, os super-desgraçados por todos desprezados. A miséria como Karma, a miséria oficializada sem poder ser erradicada. Humanismo e hinduísmo rimam mas não colam!

Gandhi foi um decisivo agente de mudança e advocava a abolição deste sistema, não fosse a Índia de hoje a maior democracia do mundo. E acreditava que a única maneira de a Índia superar “o seu Karma” seria quando elegesse para presidente uma mulher intocável (há lá estatuto mais baixo?). Mas o caminho ainda é longo e a evolução demora mais reencarnações que a soma dos deuses de todas as religiões.

Na verdade, as únicas castas que deviam existir vêm engarrafadas e se o vinho daqui não fosse tão mauzote, pedia já um copo de três numa caneca do Bambi, para esquecer as amarguras. Claro que em terra de hindus mais vale brindar com um Bang Lassi. Não sabem o que é? Ahhhh, é um elixir digno de um deus da cor-do-céu, ótimo para fazer macacadas com o Hanuman e como tal fica para a próxima crónica.

(E já agora, acendam uma velinha a Surya, o deus Sol, para amainar esse frio português. Pode ser que resulte!)