Bruno Magalhães: “Grande satisfação e grande resultado”

Bruno Magalhães fez o balanço duma época em que se sagrou vice-Campeão europeu de Ralis

Foi com o piloto já deitado no conforto do seu hotel em Liepaja e aliviado pela sua alta recente do hospital que falamos com Bruno Magalhães sobre um ano atípico em que corporizou um projeto que o levou a ser vice-campeão europeu e a realizar um sonho. O piloto navegado por Hugo Magalhães no Skoda Fabia R5 da ARC fez-nos um balanço da temporada com a qual nem sonhava no começo do ano quando reuniu os apoios para alinhar no Azores Airlines Rallye. A vitória em São Miguel acabou por catapultá-lo, apesar das peripécias, para um programa completo que levou ao reconhecimento por parte do público, dos seus adversários e dos próprios promotores do campeonato. Apesar do corpo dorido devido ao embate, também teve tempo para analisar e comparar os ralis em Portugal, agradecer o apoio recebido e manifestar que, por sua vontade, voltará à estrada.
O que significa para ti este vice-campeonato?
É uma grande satisfação e um grande resultado. Nunca imaginei, no começo do ano, que estaria no rali seguinte nem sequer a estar na última prova da época a discutir um dos três primeiros lugares no Campeonato da Europa e ter vindo à Letónia com possibilidades de ainda discutir o título. É quase como um sonho ter conseguido, apesar das dificuldades ter realizado todos estes ralis e ainda ter obtido este conjunto tão bom de resultados.
Tê-lo conseguido, ainda por cima, numa competição como esta com provas tão diversas e com características tão específicas ainda o torna mais importante. Para além disso, todo o trabalho realizado tanto por mim, piloto, como pelo Hugo, o meu navegador, e toda a equipa na melhoria da nossa performance e na forma como fomos ultrapassando as dificuldades é gratificante.
Foi também uma grande alegria ter conseguido participar em tantos ralis numa temporada depois de ter passado vários anos com participações esporádicas ou ocasionais e com programas tão reduzidos. Permitiu-me voltar a crescer bastante como piloto.

Tens consciência de que este é um dos maiores feitos da história dos ralis em Portugal?
Sim, tenho noção disso até porque este resultado é obtido numa competição muito difícil como é o Campeonato da Europa com adversários bastante experientes e rápidos e num conjunto de provas muito específicas e difíceis.

Se o calendário da segunda parte do ERC 2017 fosse com ralis semelhantes à da primeira, as tuas ambições teriam sido outras?
Ambições não, hipóteses de vitória. Se o campeonato fosse todo com provas mais tradicionais era natural que tivéssemos mais hipóteses de chegar ao título mas também não teríamos tido parte do gozo nesta participação que foi a descoberta e o prazer de participar em provas tão específicas. Eu nunca fui um piloto com medo de expor e de enfrentar os desafios. Só com essa postura é que alinhei em ralis como o Monte Carlo ou vim, por exemplo, aqui à Letónia.

Tendo em conta tudo o que já conseguiste na tua carreira, em que posição colocas esta época?
Eu diria que à cabeça pois foi a concretização dum sonho. Tive uma das minhas maiores alegrias com a conquista do primeiro título nacional pois nessa altura concretizei outro sonho. No entanto, ter chegado até aqui é a concretização dum sonho ainda maior pois é conseguido ao nível internacional contra adversários com muito maior experiência e ultrapassando o desconhecimento.

Não é caricato teres chegado a estar numa equipa oficial e só agora, nestas condições, teres participado em todas as provas dum campeonato no estrangeiro?
Tem a sua piada, realmente. É, contudo, também o reconhecimento dum trabalho bem feito. É a consequência dos bons resultados que fomos obtendo que, por sua vez, nos permitiram não só garantir como receber novos apoios. No passado infelizmente essas condições não foram reunidas.

Se os ralis têm tantos adeptos em Portugal, porque é tão difícil conseguir apoios no nosso país?
Realmente é incrível a forma como as pessoas acarinham este desporto em Portugal. A prova disso é o carinho que as pessoas nutrem por este nosso projeto e a forma como nos incentivam e manifestam o seu apoio. Julgo que essa popularidade nunca foi expressa na comunicação social generalista que na maior parte das vezes ignora a modalidade. Não é normal que se vejam tantas notícias sobre um qualquer atleta no judo, na esgrima, natação ou qualquer outro desporto disputar uma competição internacional e que termos estado até ao final ano a discutir o título europeu não tenha sido, salvo honrosas exceções, mais divulgado. Essa falta de retorno é eu inviabiliza maiores apoios aos ralis. Esse assunto deveria ser retificado através dum trabalho que é necessário mas que, claro, não me cabe a mim fazê-lo.

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Se um qualquer milionário te desse “carta branca” na escolha dum programa, o que farias e/ou escolherias?
Muito sinceramente, escolhia a mesma equipa, o mesmo carro e o mesmo navegador para disputar mais uma vez este campeonato fazendo uso da experiência e conhecimentos adquiridos. Para além disso, gostaria muito de disputar o Rali da Suécia porque nunca alinhei num rali verdadeiramente de inverno. Também voltaria àquele que é o maior rali do mundo, o Monte Carlo, que é uma experiência inesquecível.

Esta temporada ficou marcada por histórias incríveis. Queres contar algumas?
(Risos) Realmente este ano foram tantas as histórias caricatas e incríveis… A maior parte delas já o Autosport as contou ao longo ano mas aquela de que me lembro agora é a da chegada do nosso carro às Canárias. O Skoda ainda vinha desmontado e foi-nos comunicado que não poderia ser retirado e ficava retido na alfândega de Las Palmas devido a problemas burocráticos. Vimos a nossa vida a “andar para trás” até que o Aloísio irrompeu pela alfândega dentro e, ainda hoje não sei nem imagino como, saiu de lá com o carro liberto. Depois disso a equipa não dormiu a montar o carro e nós, apenas com três horas de sono, lá fomos para o Monday Test…

Quais foram os pontos altos e baixos do ano?
Para além, é óbvio da vitória nos Açores que veio a possibilitar tudo o resto, julgo que foi muito importante a nossa participação nas Canárias. Ali mostrámos a seriedade do nosso trabalho e o nosso resultado serviu para fortificar a nossa posição e a forma como nos viam. Outro do pontos altos do ano foi a ida à Grécia em que conseguimos, apesar de desconhecermos o percurso, ser muito rápidos e apenas não entramos na luta pela vitória devido a uma falha, que nunca havia sucedido a ninguém, da centralina do nosso carro.
Recordo também a nossa presença em Roma onde mais uma vez e, num traçado que era desconhecido para todos, lutámos com os melhores. Outra fonte de satisfação é a nossa presença no Barum Rally, uma prova muito difícil, em que mais uma vez nos batemos com os nossos principais adversários e até mesmo com alguns pilotos locais. O ponto mais baixo do ano terá que ser o acidente no Chipre.

Ao veres pilotos como o Gryazin ou o Rovanpera, com 20 e 17 anos, a andar assim, o que te passa pela cabeça?
É “a loucura”! Hoje em dia os pilotos começam a trabalhar muito cedo, o Rovanpera começou aos 8 anos, e dispõe de meios e de acompanhamento profissional que lhes permite com a sua idade atual estar já quase no pico da sua forma e com grande experiência. Se em igualdade de circunstâncias ainda conseguimos lutar, na terra deles “vão-se embora”…

Se pudesses voltar atrás 15 anos e com toda a experiência de que já dispões, farias as coisas de forma diferente?
Hoje julgo que deveria ter tentado muito mais cedo as participações fora de Portugal. Nem que fosse com um carro mais fraco. Sempre que se sai do país cresce-se bastante como piloto. Por exemplo, a limitação de passagens em reconhecimentos obrigou-me a desenvolver com o Hugo um novo sistema de notas e estou muito contente com o trabalho que conseguimos realizar. Por exemplo, aqui na Letónia já não fizemos qualquer alteração nas notas das primeiras para as segundas passagens…
Sim, deveria ter participado em mais ralis no estrangeiro pois, apesar da minha idade, ainda não alinhei assim em tantas provas fora de Portugal. O problema é que as regras dos ralis em Portugal são muito diferentes das que encontramos nas provas internacionais e quando um piloto português vem cá fora encontra muitas dificuldades. A nível de exemplo, é como que se na Liga dos Campeões só pudessem jogar 11 jogadores e em Portugal 13. Como poderia uma equipa portuguesa, habituada a jogar com tantos, obter bons resultados?

Globalmente, como vês os ralis em Portugal?
Os ralis em Portugal estão animados, há muita luta pelos primeiros lugares mas, como dizia, deveriam mudar algumas regras de forma a potenciar não os pilotos que estão lá agora mas novas gerações.

Sentiste o apoio dos portugueses este ano?
Senti que as pessoas começaram cada vez mais a acreditar no nosso projeto e a “vestir a camisola”. Após cada rali que fazíamos íamos recebendo cada vez mais mensagens de apoio e incentivo. Nem eu acreditava que este projeto acabasse por ser uma realidade e é natural que as pessoas, apesar da forma estranha como as coisas foram acontecendo, fossem também acreditando mais em nós. Foi espetacular e uma grande satisfação.

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Queres deixar uma mensagem a todos os que contribuíram para este percurso?
É claro. A primeira vai para a equipa e depois para a família, aos patrocinadores e aos adeptos por toda a força. Muitos adeptos viveram este campeonato como se fosse deles. Eram muitas as pessoas que durante as provas não largavam o computador sempre à espera que caíssem os tempos. Nesse aspeto tenho de dar os meus parabéns ao Eurosport pois o seu trabalho e a forma como a informação chega às pessoas ajuda a criar estes laços. Lembro-me de estar no Chipre à espera que retirassem o carro após o despiste e a minha família em Lisboa já tinha visto o acidente na televisão. Isso leva a que pessoas quase sintam que estão a viver o rali por dentro.

Foste sempre bem recebido em todo o lado como piloto e como português?
Sempre muito bem recebido pois, à exceção talvez aqui da Letónia, também havia sempre portugueses em todo o lado. Hoje em dia sinto-me valorizado neste campeonato em que há sempre uma relação espetacular com os outros pilotos e com a organização e em que sempre valorizaram aquilo que tínhamos feito, a forma como o tínhamos conseguido fazer e termos chegado ao final a discutir o título. Estamos muito orgulhosos do que conseguimos.

Tens, como tal, a sensação do dever cumprido?
Sim. Temos a sensação de que fizemos tudo o que podíamos e mesmo o que não podíamos para cumprir este nosso percurso. Apenas lamentamos não termos tido oportunidades para fazer ainda mais.

Quais são as perspetivas para o futuro?
Não existem. Claro que existe a vontade de continuar pois aquilo que gosto de fazer é ralis e nunca desisti de tentar fazer aquilo de que gosto. Houve anos em que alinhava apenas em dois ralis e cheguei a participar apenas num noutro mas nunca baixei os braços.

Um título de campeão europeu mudaria isso? Sairias pela porta grande, à Rosberg?
Não, não. Se tivesse sido campeão não ia arrumar as botas…

João Freitas Faria