A F1 segundo a Liberty Media

“Estamos a mudar de uma empresa puramente desportiva para uma empresa de marketing e entretenimento”

A Formula 1 é feita de números, uns muito pequenos e outros grandes. A Liberty Media tratou de colocar um número enorme no cheque, quando adquiriu a categoria máxima do desporto motorizado por uns espantosos 7.4 mil milhões de euros, aumentando assim as suas ramificações, tendo já investimentos feitos noutros desportos. A Liberty é um grupo que aposta forte no entretenimento e que tem ao leme John Malone.

Malone é apenas o nome por trás da Liberty, uma espécie de entidade divina aos olhos dos fãs da F1, cujo rosto raramente foi visto desde que se começou a falar do negócio. A cara da Liberty na F1 é a de Chase Carey com o seu proeminente bigode, o homem que substituiu Bernie Ecclestone, o Todo Poderoso que reinou desde 1978 e que revolucionou a F1. Bernie nunca foi um homem consensual e a convivência com Carey desde inicio foi… fria. Ecclestone foi “encostado” por não ter a mesma visão de futuro que os novos donos apresentavam, algo que iria por certo atrasar o processo de modernização da F1.

As mudanças começam a fazer-se sentir aos poucos, com cada vez mais eventos associados à F1, com mais conteúdos disponíveis nas redes sociais, uma necessidade premente a que ‘Bernie’ nunca prestou grande interesse e uma maior abertura para a equipas poderem comunicar com os fãs. Para já o balanço é positivo, mas a procissão ainda vai no adro.

Sean Bratches é outro dos nomes fortes da nova direção. O diretor das operações comerciais foi convencido a abandonar a reforma que levava já dois anos de duração, depois de mais de 25 na ESPN (foi um dos grandes responsáveis pelo crescimento da marca), para dar à F1 um novo rumo. O trabalho tem sido árduo e o cenário encontrado foi mais difícil do que o esperado, pois Bratches esperava tomar conta dos vários sectores do negócio, mas o que encontrou foi… pouco mais que nada. Não havia equipa responsável pelo marketing, ou comunicação ou do que quer que fosse. Tudo passava por Bernie e com a sua saída tudo ficou por fazer.

Este tempo tem sido então usado para construir de raiz as bases para a nova F1, com a colocação das pessoas escolhidas nos diversos departamentos para que a máquina comece finalmente a carburar.
Para Bratches, o objetivo principal é aumentar a base de adeptos e para isso quer apelar a todos os fãs, mesmo aqueles cuja paixão pela F1 não é tão grande. A experiência da ida a um Grande Prémio era mais vocacionada para os puristas, focada completamente nas corridas, mas a Liberty quer mais. Quer convencer os menos apaixonados (ou sem paixão nenhuma) a ir às corridas, mesmo que não seja pelas corridas e os eventos paralelos aos GP são a prova disso. Será que isso traz mais fãs à F1? Provavelmente não, mas aumenta o negócio, que é a ideia base disto tudo. Todas as valências dos GP serão repensadas para proporcionar a quem lá esteja uma experiência marcante. “Estamos a mudar de uma empresa puramente desportiva para uma empresa de marketing e entretenimento”. Palavras que podem assustar muita gente.

O digital é também uma das questões centrais da estratégia da Liberty, com a aposta nas redes sociais, algo que anteriormente estava deveras descuidado. As transmissões serão alvo também de uma revisão completa, com o fornecimento de mais informação para os adeptos. Têm sido algo frequentes os inquéritos sobre o que queremos ver e o que preferimos ver e essas respostas terão todas o seu peso nas decisões finais.

Frank Arthofer é o homem encarregue da parte digital da F1, estando a supervisionar o muito investimento feito nesta área. O lema de Arthofer é abertura para os fãs e dá o exemplo das filmagens dos presentes nas corridas, que devem ser permitidas e incentivadas para partilha nas redes sociais (quem melhor para fazer publicidade a um evento do que quem lá vai?).

Quanto ao futuro, terá de ser sempre planeado a curto prazo pois a velocidade a que os media estão a evoluir não permitem que se façam planos longos, o que obriga a ter um produto apelativo desde início, sem mais delongas.

Um dos aspetos que deverá mudar em breve é a forma como vemos a televisão e num mundo cada vez mais virado para a internet, o chamado “pay per view” deverá ser uma prioridade para a F1, algo que terá de ser encarado com cautela pois é preciso encontrar um equilíbrio entre o público que recorre apenas à internet e aquele que usa as operadoras de TV, que ainda são uma fatia considerável do bolo das receitas da F1. É possível que a vontade seja de encontrar um compromisso que permita um acesso facilitado, mas que não prejudique quem paga e muito para transmitir as corridas. Um equilíbrio que se espera difícil de atingir, mas parece claro que o futuro passará sempre em ter as TV do lado da Liberty.

Todas as frentes da nova F1 estão a ser revistas e postas em campo e tendo em conta o atraso que havia nas áreas agora consideradas centrais há muito trabalho pela frente, embora para os responsáveis os resultados sejam animadores com um aumento de audiência ao vivo, por TV e com o digital cada vez mais forte.

Parece claro que a vontade da Liberty é aproveitar a base de fãs de F1, que ainda é considerável para colocar poderosas máquinas de marketing a trabalhar. E os números só podem aumentar com mais fãs, e isso consegue-se com conteúdos variados e acessíveis. Para já as mudanças prementes estão direcionadas para o negócio puro e duro e algumas delas eram necessárias há muito tempo. Resta saber se a vontade de atrair mais pessoas não chegará para mudar coisas que fazem da F1 o que ela é e o que ela deve continuar a ser. Esperemos que Ross Brawn faça a sua parte nesse aspeto.