Renováveis em Portugal precisam da união energética

A "ilha de pedra" precisa de mais interconexões com a UE para ultrapassar o estrangulamento nos Pirenéus. Mas não podem ser os contribuintes portugueses a pagar essas ligações, alerta eurodeputado.

A "ilha de pedra" precisa de mais interconexões com a UE para ultrapassar o estrangulamento nos Pirenéus. Mas não podem ser os contribuintes portugueses a pagar essas ligações, alerta eurodeputado.

Portugal e Espanha são dos países europeus com maior potencial para beneficiar de uma transição para as energias limpas, mas têm um grande desafio: um estrangulamento nos Pirenéus que impede os países ibéricos de exportar a energia produzida para o resto da Europa. Para o eurodeputado português, Carlos Zorrinho, é preciso reforçar as interconexões entre países, e não podem ser só os portugueses e espanhóis a pagar por isso.

Qual é, afinal, o maior desafio para as renováveis nos dois países do sudoeste europeu? Segundo o engenheiro Carlos Matias Ramos, ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros e atual membro do Comité Económico e Social Europeu, é a incapacidade de armazenar em grandes quantidades a energia renovável produzida, que “em certas horas de ponta” excede a procura, e também a impossibilidade de a exportar para países onde ela possa ser precisa devido ao “estrangulamento nos Pirenéus”.

Num encontro com jornalistas portugueses e espanhóis em Bruxelas esta semana, Carlos Matias Ramos explicou que a união de energia “serviria para fortalecer a cooperação regional e o investimento nas fontes energéticas renováveis”, e que Portugal foi um bom exemplo no desenvolvimento do segundo objetivo. “Fomos bons alunos”, afirmou. A dificuldade é armazenar essa energia em alturas em que a procura é inferior à produção — por exemplo durante a noite, quando os gastos são baixos, mas a energia eólica pode ter picos de produção. As baterias não servem. A única forma de o fazer, explica, é através da construção de estruturas de acumulação hídrica que, numa explicação simplista, usem a energia para turbinar água para níveis superiores, podendo depois voltar a produzi-la quando a água volta a correr.

Uma alternativa à utilização destes backups hídricos seria, claro, a exportação. Se houver procura no estrangeiro para esta energia produzida de forma limpa, isso poderia ajudar a baixar os custos de produção energética através da venda ao exterior, assim como a baixar os custos das energias nos países ligados. No entanto, a “ilha de pedra”, como lhe chama o engenheiro Carlos Matias Ramos inspirado por Saramago, tem um “estrangulamento nos Pirenéus” que a impede de exportar energia eficazmente para França e daí para os restantes países da Europa.

Em 2015 foi criado um plano para interligações de energia com França, mas esse país sempre teve menos dedicação ao projeto do que Portugal e Espanha. Uma das interligações era o projeto do Golfo da Biscaia, que ligaria Espanha a França por mar, evitando os Pirenéus. Só esse investimento estimava-se então em 1,9 mil milhões de euros.

Contribuintes do Sul não podem pagar interconexões

Carlos Zorrinho, eurodeputado português do grupo S&D, eleito em Portugal pelo PS, disse que a primeira condição para mais investimento em renováveis tem de ser o desenvolvimento destas interconexões. “Portugal não tem nada a perder com a transição energética”, disse o eurodeputado, no mesmo encontro, em vésperas de uma conferência sobre o financiamento das energias limpas na Europa. “Quero garantir uma linha vermelha nas interconexões — um aumento de pelo menos 15% até 2030”, acrescentou, um objetivo no qual é acompanhado pelo eurodeputado espanhol José Blanco, relator de parte do parecer do Parlamento à proposta de Energia Limpa da Comissão Europeia.

Mas quem vai financiar este investimento? Para Zorrinho, não podem ser apenas os contribuintes portugueses. O financiamento teria de ser bonificado. “Tem de haver, do meu ponto de vista, um Plano Juncker para as interconexões: um financiamento bonificado para as interconexões. Porquê? Se queremos ser uma plataforma de passagem entre o Norte de África e o resto da Europa, não faz sentido serem os consumidores portugueses a pagarem a totalidade do investimento”, disse o eurodeputado.

A jornalista viajou para Bruxelas a convite do Parlamento Europeu.