Paulo Teixeira Pinto quebra o silêncio e desvenda a “cor do medo”

O ECO falou com a jornalista Sílvia de Oliveira, que colocou um ponto final no silêncio de Paulo Teixeira Pinto, antigo presidente do BCP, e que escreveu a biografia intitulada "De Que Cor é o Medo".

O ECO falou com a jornalista Sílvia de Oliveira, que colocou um ponto final no silêncio de Paulo Teixeira Pinto, antigo presidente do BCP, e que escreveu a biografia intitulada "De Que Cor é o Medo".

Dez anos passaram sobre o fim da guerra que colocou frente a frente Paulo Teixeira Pinto, o então presidente do BCP, e Jardim Gonçalves, o seu antecessor. Foram anos de silêncio, fora da atenção mediática, agora rompido na sua biografia autorizada, escrita por Sílvia de Oliveira. O ECO falou com a autora, sobre um processo de escrita que a própria descreve repetidamente como tendo sido “intenso”, marcado por uma “contenção” por parte do biografado e de alguns dos seus amigos e próximos.

Sílvia conheceu Paulo Teixeira Pinto em 2005, enquanto jornalista a acompanhar o setor bancário. Paulo acabava de assumir o cargo de presidente do Banco Comercial Português (BCP), num mandato que viria a revelar-se atribulado para o banqueiro. “Ficámos muito surpreendidos com a escolha de Jardim Gonçalves”, recordou na apresentação do livro, a par das viagens “emocionantes” ao Porto para testemunhar as assembleias gerais do banco.

Por duas vezes a jornalista abordou Teixeira Pinto para escrever a sua biografia e por duas vezes recebeu um “não” como resposta. Mas foi à segunda, após alguma insistência, que Sílvia deu início à escrita da biografia autorizada, no final do ano passado. O livro aborda não só a mediática guerra aquando da sua presidência do BCP como também a vida familiar e amorosa do biografado.

Olhando para as primeiras conversas com o banqueiro, a autora recorda a tensão e o ambiente constrangedor entre os dois. Um dos primeiros episódios passou-se num escritório da Abreu Advogados. Na altura, Sílvia escrevia sobre a atual relação amorosa do banqueiro e Paulo estava a recuperar de uma operação. “Estávamos todos muito inibidos, ele porque estava a contar-me coisas da sua vida pessoal, e eu porque me sentia a invadir a intimidade dele”, afirmou. Com o passar dos meses e o progresso na escrita do livro, “as conversas foram fluindo”, tornando-se “mais fáceis”.

Ser banqueiro como acidente de percurso?

O assunto BCP foi aquele sobre o qual Paulo revelou maior dificuldade em falar. “Deixámos para o final, inclusive”, disse Sílvia. Dez anos de silêncio sobre o assunto levantavam constrangimentos ao biografado mas, à medida que a autora foi lançando as perguntas, Paulo foi cedendo e tornava-se cada vez mais evidente que “a biografia não podia saltar este ponto”, conta.

O Presidente de Administração do Millennium/BCP, Paulo Teixeira Pinto, durante a conferência de imprensa para anunciar os resultados do primeiro semestre, 24 de julho de 2007, na sede daquela instituição bacária, em Lisboa. INÁCIO ROSA/LUSA

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Em dois capítulos, Sílvia de Oliveira escreveu sobre a ascensão e a passagem de Paulo Teixeira Pinto pela presidência do banco português. A autora falou com alguns dos envolvidos nos confrontos dentro do banco, nomeadamente os membros do conselho de administração Filipe Pinhal e Filipe Botton, e com o próprio Jardim Gonçalves.

Paulo foi sabendo dessas conversas e foi tomando conhecimento do seu conteúdo, sem ter levantado quaisquer tentativas de censura. “Aliás, eu também permiti que ele fosse lendo as provas, já no fim de tudo feito, e que estivesse a par de tudo”, disse, justificando-o primeiramente “por uma questão de respeito”. “Ele foi acompanhando tudo, mas eu não tive de mudar absolutamente nada”, resumiu.

Apesar da surpresa em 2005, Sílvia não considera que o percurso de Paulo enquanto banqueiro tenha sido um ‘acidente de percurso’. A autora relembra a entrada de Teixeira Pinto para o banco em 1995, após a derrota do Governo de Cavaco Silva nas eleições legislativas, e a carreira progressiva que se desenrolou nos dez anos seguintes e culminou na chegada à presidência em 2005. “Eu diria que dez anos, com os mais de dois anos que teve na presidência, é muito tempo para ser um acidente”, admite.

Um projeto “estimulante”

A escrita da biografia surge numa altura em que Sílvia se encontrava desempregada. Após 25 anos de trabalho enquanto “jornalista dos pés à cabeça”, viu na escrita do livro “um projeto interessante para fazer”. “Ficar assim, de repente, sem nada por fazer, foi um impacto muito forte”, explica.

Sílvia refere que a escrita desta obra “surgiu na altura ideal”, e que lhe conferiu um “crescimento interior”.

A ironia também teve um papel na escrita desta biografia. Na última entrada do prólogo, Paulo Teixeira Pinto escreve que, se pudesse escolher, preferia morrer “de pé”. Pois foi a intensidade de todo o processo de escrita do livro que provocou “uma inflamação gigante no nervo ciático” de Sílvia, recorda, obrigando-a a ler a prova final do livro, também ela, “de pé”.