Com blockchain nos media “posso dizer isto não é clickbait”

Aos olhos de Mark Curtis - da Accenture e fundador da Fjord - a revolução tecnológica não acabará com o trabalho humano, mas as mudanças na humanidade, essas, são inegáveis.

Aos olhos de Mark Curtis - da Accenture e fundador da Fjord - a revolução tecnológica não acabará com o trabalho humano, mas as mudanças na humanidade, essas, são inegáveis.

Mark Curtis não é guloso, mas cede sempre a um bom pastel de nata. Em Lisboa para a maior feira de tecnologia do mundo, o empreendedor que fundou a Fjord (empresa global de serviços de design e inovação) aproveitou para matar saudades do único doce que não recusa e para falar com o ECO sobre o futuro… da tecnologia, do trabalho, enfim da humanidade. Mark é um otimista que ri com os olhos e comanda o departamento comercial da consultora Accenture. Aprecia livros “pesados”, filmes “leves” e a teoria de que haverá sempre algo que nos separa dos robôs.

Mark Curtis foi um dos oradores do Web Summit.

ECO - Economia Online

Imagine um dia em 2030. Como é que os humanos comunicam uns com os outros?

Se nos pudéssemos transportar para 2030, o que nos surpreenderia mais seria a variedade de lugares onde poderíamos comunicar sem precisar de um telemóvel e a variedade de objetos através dos quais poderíamos comunicar. Trata-se da ideia de que se pode conversar em qualquer lugar e com qualquer coisa. No momento em que conseguimos falar com um altifalante e pedir-lhe que toque música, todos os outros objetos parecem bastante estúpidos. Eu penso que essa mudança nas expectativas — nós chamamos-lhe expectativas liquidas — alargar-se-á a tudo o resto. A comunicação por voz, no carro, por exemplo, terá um novo vigor. O utilizador esperará conseguir falar com qualquer coisa, mesmo que esteja muito distante. Por exemplo, há cinco semanas, sem avisar a minha mulher ou a minha filha, comecei a falar com elas através do altifalante Echo [da Amazon] que temos no quarto. Sobressaltei-as, porque do nada disse “Olá” e elas pensaram “Onde está ele? Não deveria estar ele na América?”.

Está a falar do modo como falamos com objetos e quanto ao modo como falamos com outros humanos?

Acho que veremos mudanças no modo como usamos a tecnologia para interagir uns com os outros em quatro grandes áreas. Nas conversas cara a cara as alterações não serão particulares. Depois, há as conversas que temos com as máquinas. Há também aquelas que temos uns com os outros através dessas máquinas e, por fim, aquelas que temos uns com os outros que são aumentadas pelas máquinas e isso é algo completamente diferente. Essa será a categoria que explodirá nos próximos 13 anos. Teremos conversas, mas serão aumentadas pelas máquinas, que passarão a intermediárias. Hoje, dizemos, perante qualquer tipo de debate, “vamos ao Google”. Em 13 anos, vamos dizer “vamos perguntar ao Google, à Alexa ou à Carla”…

…porquê uma mulher?

Nunca ninguém deu uma resposta suficiente a esta questão.

Quer tentar?

Acho que se pensa que as mulheres são mais empáticas. As plataformas querem que os computadores sejam empáticos com as pessoas e a maioria das pessoas prefere falar com uma “voz” feminina, mas não é absoluto. Quando instalei a Alexa [da Amazon] no quarto, a minha mulher ficou zangada, porque não queria outra voz feminina lá.

Vamos voltar a 2030. Com tanta tecnologia, vamos ser felizes?

Não, porque a escala da disrupção é tão grande neste momento e não vai desaparecer. Os carros, por exemplo, foram popularizados nas primeiras décadas do século XX, mas só em 1980 os cintos de segurança tornaram-se obrigatórios. Antes disso, muitas pessoas já tinham atravessado, por acidente, o vidro da frente. Levou oitenta anos para o Governo tomar essa decisão. Portanto, acho que temos de olhar com muito cuidado para o que está a acontecer e pensar no ajustamento da sociedade. Temos de encontrar os cintos de segurança para o digital. Espero que as pessoas tentem encontrar um novo contrato social que nos permita navegar essas mudanças. Por exemplo, com os carros autónomos, desaparecerão muitos empregos.

No mesmo cenário, haverá sequer ainda postos de trabalho para humanos?

Sim, de facto estou relativamente otimista quanto a isso. Haverá um período disruptivo, antes da chegada dos novos empregos, que será desafiador, especialmente para as pessoas envolvidas na circulação das coisas, porque os robôs fazem-no melhor do que os humanos. Vamos, contudo, acabar por criar novos postos de trabalho e novas formas de produtividade com os humanos a trabalharem com máquinas e robôs. Portanto, haverá um hiato, mas rapidamente começarão a surgir novos empregos.

E o que podemos fazer durante esse hiato?

Se a promessa dos robôs se cumprir, haverá menos trabalho a ser feito por nós de modo a que a sociedade seja produtiva. Se esse for o caso, surgirão algumas questões sérias quanto à criação de um sentido de valor próprio, particularmente no que diz respeito às pessoas que só trabalharão dois ou três dias por semana. Fala-se de um rendimento universal, é uma boa ideia e deve acontecer. Isso cobre as necessidades básicas — água, aquecimento, comida — mas não diz nada sobre o valor próprio desses indivíduos.

Ver Tweet de @daanolieroock

Nestes dias, no Web Summit, falou-se imenso de Realidade Aumentada (AR), Realidade Virtual (VR) e Inteligência Artificial (AI). Como é que essas tecnologias vão mudar o modo como fazemos negócios?

Em relação à VR, por algum tempo, manter-se-á um nicho. Em algumas áreas — como na venda imobiliária — terá grande impacto e trará benefícios, a nível dos negócios, mas não em todas. O seu potencial é intenso, mas não é muito largo. Quanto à AR, será massiva, porque permite lançar uma camada digital sobre absolutamente tudo o que está à nossa volta. O Pokémon Go foi um ponto de viragem, porque nos mostrou como a AR pode ser aplicada de uma forma divertida. Agora é mais fácil para uma loja construir algo em AR e para os clientes aceitarem que ela lá está. Há um novo reino de oportunidades para os negócios, especialmente derivado do poder combinatório do digital. A AR dá-nos a habilidade de, ao olharmos para uma loja, vermos também os serviços de uma outra organização, como um banco por exemplo. Ou vice-versa… isso será uma grande tendência no próximo ano. A diretiva PSD2 exige que os bancos partilhem a informação que têm sobre os seus clientes, para que outras empresas personalizem assim outros serviços. Vai acontecer, em 2018, na Europa, mas o resto do mundo estará atento.

E quanto aos media, como podem inovar e acompanhar essa revolução tecnológica?

O blockchain é muito interessante. Se eu tivesse a meu cargo um meio de comunicação amanhã, olharia com muita atenção para o blockchain como uma forma de identificar a proveniência [de conteúdo]. O blockchain está a reverter a tendência do digital dos últimos 25 anos. Essa tendência era a de fazer tudo copiável e acessível livremente. O blockchain muda isso, dando-nos a tecnologia confiável para dizermos “este é o original” e aumentar a confiança quanto às transações e à autenticidade. Não estou a dizer que o digital é mau, mas há muito boas razões para explorar algo como o blockchain, que fornecerá um nível de proteção do interesse de todos, porque nesse caso podemos dizer autenticamente “isto é real, isto é verdadeiro, isto não é clickbait“.

Ver Tweet de @AdamEbel

Para terminar, agora que já há uma cidadã humanoide, como podemos definir o que é ser humano?

Apenas os humanos podem significar empatia e amor. Ela [a Sophia] pode “fazê-lo”, mas não o poder sentir. O ponto que nos separa é o impulso para a intenção humana, que pode ser boa ou má. É difícil filosoficamente, porque esta teoria só funciona se acreditarmos no livre-arbítrio humano…

… e se não acreditarmos? Somos iguais aos robôs, nesse caso?

Conheci tecnólogos ferrenhos que concordariam com essa afirmação. Corroborariam a teoria de que somos apenas algoritmos com um exterior carnudo e que somos pré programados. Há factos irrevogáveis, como o Teorema de Pitágoras, mas também há conexões que só os humanos percebem, como a relação entre as abelhas, a cera e as velas. Depois, há o irreal: as construções que os humanos fazem para dar sentido ao mundo, como o amor. O amor não existe e não me parece que os robôs ou a inteligência artificial vão fazer construções semelhantes.

Portanto, amor, empatia e criatividade. É isso que faz de nós humanos?

Sim. A deteção de conexões e a criação de construções como o amor representam criatividade, tem razão. A minha mulher diz sempre que os humanos são brilhantes porque celebram. Eu gosto disso. Não posso imaginar um robô a celebrar por sua própria vontade.