Caixa quer cobrar mais comissões na gestão de ativos e seguros e não nas contas à ordem

Paulo Macedo assume que o banco público vai aumentar as comissões em alguns produtos e serviços para compensar os juros baixos. Os aumentos deixam de fora as contas à ordem.

O novo presidente da Caixa Geral de Depósitos revela que é intenção da nova administração cobrar mais comissões na gestão de ativos e seguros e não nas contas à ordem. Em entrevista ao Expresso (acesso pago), publicada na íntegra este sábado, Paulo Macedo lembra que o banco público é “quem cobra menos comissões no mercado“, mas com o “atual cenário da taxa de juro” “são os bancos e os aforradores” “os mais penalizados”, por isso as comissões vão ter de aumentar, justifica.

“Áreas onde queremos cobrar mais são, por exemplo, a gestão de ativos e os seguros, não nas contas à ordem”, disse Paulo Macedo, naquela que é a primeira entrevista de um presidente executivo da Caixa em seis anos. O presidente executivo lembra ainda que o banco tem “isenção de comissões nas contas de serviços mínimos, enquanto a maior parte dos bancos cobra” e tem “uma nova proposta de valor que são as contas com um conjunto de serviços integrados e que os outros bancos já disponibilizavam, as Contas Caixa”.

Paulo Macedo alertou ainda que não conseguirá cumprir o plano de reestruturação se não aumentar as comissões. “Não conseguiremos cumprir o plano de reestruturação se não aumentarmos as comissões, não só pelo crescimento do negócio mas também porque queremos aumentar os níveis de serviço e porque temos novas propostas de valor”.

CGD aumenta comissões de milhares de contas em setembro

O responsável defendeu ainda que “as pessoas têm de ter consciência de que a Caixa precisa de ser rentável porque tem de gerar capital organicamente para cumprir os requisitos adicionais impostos pelo Banco Central Europeu” e para “remunerar o acionista”. Porquê? “Porque todos os portugueses querem que o dinheiro que foi posto na Caixa tenha retorno”, explicou.

“Se a Caixa não tiver lucros não defende os seus depositantes e não consegue ter capital e liquidez para ter a sua função na economia portuguesa nos empréstimos às pequenas e médias empresas”, justifica ainda o antigo ministro da Saúde. Na sua opinião a necessidade de lucros prende-se também com a possibilidade de “valorizar os seus recursos humanos” e continuar a ser “um banco de refúgio”.

Apesar de defender que “os bancos portugueses não dão hoje menos crédito por falta de liquidez ou rácios, mas porque há uma menor procura de crédito por parte das empresas e das famílias” — “não houve redução de crédito na Caixa por falta de rácios de capital”, garantiu — também reconheceu que “a Caixa tem de ser sustentável e acabar com este ciclo de prejuízos” para apoiar as empresas nacionais num cenário de domínio crescente da banca estrangeira. “Temos um compromisso claro de ganhar quota nas PME, no apoio às exportações e manter uma posição sólida no mercado à habitação”, disse Paulo Macedo.

Caixa disponível para dar mais tempo à Artlant

Paulo Macedo está disponível para dar mais tempo para que a Artlant, a gestora do projeto petroquímico de Sines e que está em processo de insolvência, resolva os seus problemas. “Se for possível uma solução que garanta a manutenção da fábrica e dos posto de trabalho a Caixa está disponível a conceder mais tempo para a concretização do negócio. Mas sem esquecer a racionalidade da operação, que pretende minimizar as perdas”, acrescentou.

O CEO da Caixa revelou ainda que “tem levado a cabo conversações com potenciais interessados”, alguns dos quais estrangeiros, na fábrica de Sines.

Para Paulo Macedo faz sentido a plataforma que está a ser criada para gerir o malparado e garante que “a Caixa está hoje ativa na recuperação e reestruturação do crédito malparado

Política à parte

Paulo Macedo é claro: “Se querem perguntar se temos interferências na concessão de crédito, ou no dia-a-dia, da instituição, posso responder que não temos”.

“Há sempre a tentação de puxar a CGD para a arena política”

Ainda assim o presidente executivo da Caixa lamenta que haja “sempre uma tentação de puxar a Caixa para a arena política”. Apesar de defender que seja o Governo a nomear o Conselho da Caixa, designadamente o presidente executivo, mas deve haver elementos de continuidade de umas administrações para outras”. “É estranho — e acho quase anormal, a não ser por motivo extraordinário — que todo um conselho de administração seja alterado quando há mudanças de governos”.

Paulo Macedo sublinhou ainda que espera luz verde da Comissão Europeia aos dois nomes da administração (não executivos) até ao final de outubro.

Os números da Caixa:

  • Encerramento de agências: O plano “já foi cumprido este ano, com 64 agências encerradas”.
  • Redução do número de trabalhadores: “Temos neste momento a saída de 250 pessoas e até ao final do ano deverão ser 536. A maior parte por reformas antecipadas.”
  • Contas de serviço mínimo: “O mercado todo tem cerca de 40 mil, nós teremos mais ou menos metade disso”.
  • Contas Caixa: “São um sucesso. Vamos em 310 mil em dois meses de oferta. Esperamos chegar às 50 mil até ao final do verão”.
  • Unidade Móvel: “Cerca de 60 pedidos de Conta Caixa [foram feitos nesta unidade], no espaço de três semanas”.
  • Almeida: “Mais de 95% do negócio — depósitos e crédito — mantém-se”.
  • Clientes: “A Caixa tem 6,2 milhões de clientes, 2,5 milhões inativos. Ninguém em Portugal tem ‘essa riqueza'”.